
As riquezas da fé
Artigo de S. Josemaria publicado no jornal ABC (Madrid), em 2 de Novembro de 1969. O Fundador do Opus Dei fala do amor à liberdade como um dos tesouros da fé cristã.
2007/09/01
Neste cântico ás riquezas da fé que é a Epístola aos Gálatas, São Paulo diz-nos que o cristão deve viver com a liberdade que Cristo nos ganhou (1). Foi esse o anúncio de Jesus aos primeiros cristãos e continuará a sê-lo ao longo dos séculos: o anúncio da libertação da miséria e da angústia. A história não está submetida a forças cegas nem é o resultado do acaso, é antes a manifestação das misericórdias de Deus Pai. Os pensamentos de Deus estão por cima dos nossos pensamentos, diz a Escritura (2), por isso, confiar no Senhor quer dizer ter fé apesar dos pesares, indo além das aparências. A caridade de Deus “que nos ama eternamente” está atrás de cada acontecimento, embora de uma maneira por vezes oculta para nós.
"Confiar no Senhor quer dizer ter fé apesar dos pesares, indo além das aparências".
A liberdade cristã nasce do interior, do coração, da fé. Mas não é algo meramente individual, tem manifestações exteriores. Entre elas, uma das mais características da vida dos primeiros cristãos: a fraternidade. A fé – a magnitude do dom do amor de Deus – fez com que diminuam, até desaparecerem, todas as diferenças, todas as barreiras: já não há judeu, nem grego; não há servo, nem livre; não há homem, nem mulher; todos vós sois um só em Cristo Jesus (4). Esse saber-se e querer-se, de facto, como irmãos, acima das diferenças de raça, de condição social, de cultura, de ideologia, é essencial ao cristianismo.
Não é minha missão falar de política. Também não é essa a missão do Opus Dei, já que a sua única finalidade é espiritual. O Opus Dei não entrou nem entrará nunca na política de grupos e partidos, nem está vinculado a nenhuma pessoa ou ideologia. Esse modo de actuar não é uma táctica apostólica, nem uma conduta meramente louvável. É uma necessidade intrínseca para o Opus Dei proceder assim, já que o exige a sua própria natureza e tem um selo evidente, o amor à liberdade, a confiança na condição própria do cristão no meio do mundo, actuando com completa independência e com responsabilidade pessoal.
Não há dogmas nas coisas temporais. Não está de acordo com a dignidade dos homens tentar fixar verdades absolutas em questões onde, forçosamente, cada um há-de contemplar as coisas do seu ponto de vista, de acordo com os seus interesses particulares, as suas preferências culturais e a sua própria experiência peculiar. Pretender impor dogmas no temporal conduz, inevitavelmente, a forçar as consciências dos outros, a não respeitar o próximo.
"Cada homem há-de fazer a experiência da sua autonomia pessoal, com tudo o que isso supõe de azar, de tenteio e, nalgumas ocasiões, de incerteza".
Deus, ao criar-nos, correu o risco e a aventura da nossa liberdade. Quis uma história que seja uma história verdadeira, feita de autênticas decisões e não uma ficção nem um jogo. Cada homem há-de fazer a experiência da sua autonomia pessoal, com tudo o que isso supõe de acaso, de hesitação e, nalgumas ocasiões, de incerteza. Não esqueçamos que Deus, que nos dá a segurança da fé, não nos revelou o sentido de todos os acontecimentos humanos. Juntamente com as coisas que para o cristão estão totalmente claras e seguras, há outras – muitíssimas – em que apenas cabe a opinião; quer dizer, um certo conhecimento do que pode ser verdadeiro e oportuno, mas que não se pode afirmar de um modo incontroverso. Porque não só é possível que eu me engane, mas – tendo eu razão – é possível que também a tenham os outros. Um objecto que a um parece côncavo parecerá convexo aos que estejam situados noutra perspectiva.
A consciência da limitação dos juízos humanos leva-nos a reconhecer a liberdade como condição da convivência. Mas não é tudo e, inclusivamente, não é o mais importante; a raiz do respeito à liberdade está no amor. Se outras pessoas pensam de maneira diferente de mim, isso é motivo para as considerar inimigas? A única razão pode ser o egoísmo, ou a limitação intelectual dos que pensam que não há mais valor que a política e as empresas temporais. Mas um cristão sabe que não é assim, porque cada pessoa tem um preço infinito e um destino eterno que é Deus: por cada uma delas morreu Jesus Cristo.
Quando o cristão vive de fé – com uma fé que não seja uma mera palavra, mas realidade de oração pessoal – a segurança do amor divino manifesta-se em alegria, em liberdade interior".
Falar de liberdade, de amor à liberdade, é propor um ideal difícil: é falar de uma das maiores riquezas da fé. Porque – não nos enganemos – a vida não é uma novela cor-de-rosa. A fraternidade cristã não é algo que venha do céu de uma vez por todas, mas realidade que há-de ser construída cada dia. E que o há-de ser numa vida que conserva toda a sua dureza, com choques de interesses, com tensões e lutas, com o contacto diário com pessoas que nos parecerão mesquinhas e com mesquinhezes da nossa parte.
Mas se tudo isso nos desalenta, se nos deixamos vencer pelo próprio egoísmo ou se caímos na atitude céptica de quem encolhe os ombros, será sinal de que temos necessidade de aprofundar na nossa fé, de contemplar mais Cristo. Porque só nessa escola é que o cristão aprende a conhecer-se a si próprio e a compreender os outros, a viver de tal maneira que seja Cristo presente nos homens.
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1. Cfr. Gal 4, 31 (Vg); Gal 5, 1 (Nvg).
2. Cfr. Is 55, 8; Rm 11, 33.
3. Rm 8, 31.
4. Gal 3, 28.
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S. JOSEMARIA
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2013/05/18

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